segunda-feira, 16 de março de 2026

Me espera


Vim brincar

com você.

Que em 

mim eu sou

em sonho e

quem acordado

vem me buscar.

Vim brigar

com você.

Que eu não 

queria que 

fosse,

mas para os dias

foi quem me

trouxe.

sábado, 4 de novembro de 2023

Penumbral

No meio, entre as trevas e as luzes,
Existe a penumbra.
O visível invisível  de algumas  silhuetas
Em uma fotografia da alma humana e do mundo.
O umbral é o aparente nada rumo a  lugar nenhum.
Porque, por ora, ainda suspensão de rumos.
Como um ponto de inflexão dos respiros, das entressafras, das sístoles e diástoles
O penumbralmento instaura uma forma potencial de tempo
para um lugar de -  quem sabe? - qualquer acontecimento.

domingo, 3 de março de 2019

Caiaque

Pela manhã já embarco
e com meu barco escrevo.

Um poema por dia
Com ritmos, remos,
ventos e melodia

Todo oceano é
Um coração
Toda viagem é
Uma oração

Conduzir com a caneta
Algum sentimento
Nas sinuosas curvas
Das letras cursivas
A formar mapas
de rios em curso.

Escrever para crer.
Saber navegar se
é tempestaste viver.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Dente de leão

No meu caminho
muita pedra, lama, flores.
Na minha guerra
desafeto, amizade, amores.
O tempo me sopra
Como um dente de leão
Que pelo espaço vai ao léu
de encontro à Questão.
Não fui quem eu agora sou;
algo entre quem era e serei.
Estados suspensos de Coisa,
Alguma economia doida.
Relação de força que perpassa
Me agita, pensa e atravessa.
Para me sentir bem à beça
Ou querer pouca a conversa.
É bonito e esquisito
Como um rio que se rega
De um efêmero infinito.


domingo, 12 de março de 2017

Apenado

Meu passado me condena
a alguns anos de memória
com a polícia nos meus dias
me rendi sem escapatória
já o juiz era suspeito
ignorava minha história
Faz tempo que estou preso
cumprindo minhas lembranças
minha cela é apertada e
me machuco quando há dança
Vigiado e punido
na esperança e desespero
ante o acaso e o destino
de coragem e de medo
Cavo e calculo a fuga
Rogo e rezo pela cura
Um dia eu vou pra rua
poderei olhar a lua
estarei foragido e esquecido
para dançar no desconhecido

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Pós-ser

Que inveja dos mortos
Nos quais para todo fim
Não mais existem
(Ainda que sim)

Que pena dos vivos
Condenados a serem livres
Na liberdade de escolha
Por destinos tão tristes

Que asco do tolo
Em sua representação
Pensar o mundo explicado
(Ainda que não)

Que decepção com o sábio
Se contentar com tão pouco
Para na própria história
Não ser tomado por louco

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Ser

O medo e a vontade
Da vida e da morte
Apego e liberdade
Ao azar e à sorte
O meu melhor amigo
Me instiga a querer
Ele em mim tem abrigo
Não me deixa morrer
Já meu arqui-inimigo
Também ele sou eu
Que me culpa e me pune
Por tudo que é meu

Acordo com um
E deito com o oposto
Os dois e nenhum
Dentro do mesmo rosto
Nenhum e os dois
Em mim todo exposto

domingo, 8 de novembro de 2015

Saudades de Casa

Minha casa está aqui
Justo onde sou estrangeiro
Onde eu moro é logo ali
E também o meu passeio

Todo dia eu regresso
E não me encontro no lugar
Toda hora me despeço
Como se desse pra voltar

Por não ter pra onde ir
Permaneci e não parti
Viajei e não voltei
Pelas coisas que deixei

Minha casa está aqui
Eu carrego ela nas costas
Impossível sair de si
Ir atrás de mais respostas

No corpo eu convivo
Com as marcas da emoção
No Cosmos coexisto
Com minha imaginação

Eu sou o meu lar
Alojado na Mãe-Terra
Aprendendo a amar
Enquanto por aí erra...

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Presente de grego

Quando, então, a magia
Exilada foi pela ciência
Lançou um feitiço-ironia
Em nossa inconsistência
Inverteu os papéis
Fez da sorte revés
Nos incutiu
O apaixonar-se pela razão
E nos persuadiu
A racionalizar toda paixão

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A morte

No abismo ecoa vida de todos os tipos
Tem o grito dos que se jogam
E também o choro dos recém-nascidos

sábado, 27 de junho de 2015

Aiôn

Brotamos da noite e do dia
Do sonho e vigília
Tristeza e alegria
Ciência e magia
Com partes machos
E partes fêmeas
Entre instinto
E consciência
Concebidos pelo pensamento
E unificados pelo sentimento
Mesclados entre o real e o onírico
Arco-íris entre matéria e espírito

quinta-feira, 19 de março de 2015

Coração Alada

Coração ligada,
Beat acelerado
Mas voa com calma
Pra viajar  mais longe
Levando corpo e alma
Seu desejo escolhe onde
Voa soltinha, borboletinha
Venha hoje à minha casa
Seja você minha madrinha
Quero que me conte seu segredo
De como faz pra bater asa

para Roberta Ramos

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Ventamar

De cara franzida ou com a vista embaçada,
A tarde é de luz tão intensa
Que assopra as sombras juntamente com as ondas.
Mas que não queima, acalma e nem nada.
Por conta da ventania na praia.
Vento no mar
Areia e ar.
O Oceano é um mistério
E a terra firme o critério.
Todos os dias, um homem quase se afoga.
Sobrevivendo, abraça o chão e se põe a pensar.
Outro vem do interior lá de bem longe.
Há horas ou dias, para aqui enfim descansar.
Existiria mais propício habitat
Do que o precipício do limiar?
Talvez. Mas há uma ventania na praia
E horizontes em todo lugar

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Temporal

A morte chegará sempre cedo.
Para os que dela nasceram sem medo.
Veja! Aqui está ela!
Nos paridos do seu finado ventre.
Embora não tenha ninguém doente.
Vai surgir numa tomada de consciência súbita.
Ainda que não haja ser algum em suas últimas.
Implodirá cristalina e bela.
Em formato de raio, bem nítida, sincera.
Seremos cegados então por um clarão.
E logo ensurdeceremos com um trovão.
Ela é a epifania da lágrima e da chuva.
Será sempre precoce, mas também de indescritível beleza.
Benção e maldição, alegria e tristeza.
A morte é parte da nossa natureza.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Epistemologia

O que é que há
Quando se referem à lá,
Sincronicamente, lá já não está
bem como tudo que há?

E o que é que se inventa
Quando se experimenta
Uma inédita fugacidade
que é a eternidade?

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Engasgue

Me como, me bebo, me fumo.
Deslizo por mim.
Pela minha garganta.
E me engasgo, tusso.
Estou entalado.
Me jogo de costas contra a parede.
Me dou porradas atrás com um porrete.

A inspiração para poemas não escritos
Amores nunca vividos e já esquecidos
A solidão de suspeitar saber quem se é
Ver o mundo, pensar nas coisas, perder a fé

Impulsos de gritos de fúria e horror
Gestos asfixiados de gentileza e amor

Caroços de frutos podres que sufocam em filosofia vã
Alivio o sintoma com cachaça, cannabis e clonazepan
O sábio o é  porque se engole a seco.
Consigo, ele é invencível.
Já sentiu, soube e aceitou:
Não existe vômito possível.

para Estamira

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Não é Nada

Às vezes vem uma vontade de escrever tudo o que me acontece. Cada conexão complexa que me faz ser vida e por acaso, ainda por cima, me faz ser eu. Isso é besteira. Eu já sei que pra isso haja é mão. E depois, o pouco que eu sei é só um tiquinho de nada. Ficaria faltando, por assim dizer, o infinito. E é justo esse que ando pesquisando para quem sabe nunca eu poder, sem jamais escrever, tal dissertação. Distração tola, diriam muitos, mas muito menos que tola, eu diria sem desmerecimento nenhum, muito pelo contrário, inútil. Uma vez que essa empreitada está fatalmente fadada ao fracasso. Isto é, sem conclusão. Estudar o infinito demora bastante e é por isso que eu escolhi isso de passatempo. Além de demorado ele também é muito. Tenho QUASE certeza que as eventuais sensações de saturamento, exaustão, de asfixia, de náusea, intoxicação e a agonia dos soluços, dos choros com soluço, vem desse infinito que eu não conheço. Ele é demorado, é grande, é de uma proporção tamanha que eu falo mas na verdade não tenho nem ideia. No entanto, está dentro de mim me fazendo passar mal uns bons dias. Com todo esse tamanho me enchendo sem me estourar. Nesses dias me sinto é cheio, de saco cheio, cheio de vazio. Vazio que não se enche com bebida, nem comida e nem fumaça porque faz parte também do infinito. Desconfio de alguns vácuos mas não tenho certeza de nada. As coisas finitas eu não sei por que as estudam tanto. São importantes, é claro, mas muito superestimadas. Observar uma coisa acontecer e esperar que assim sempre aconteça, apenas nos orienta mais ou menos. Para toda regra há exceções. Sempre haverá os outros pontos de observação. E depois, há infinitos eventos que transcendem a nossa sensorialidade e que, assim sendo, serão para sempre ignorados pelo nosso pensamento. No final as coisas finitas também têm que ver com o infinito e é por isso que ando ocupado dele. Sei que falo por repentino pessimismo que em certos momentos o infinito me enche de vazio. É só na hora da tristeza. Eu falo por falar. Pra ver se sai um pouco do tanto que tá em mim pela voz. Esse tanto que quanto mais vazio maior o peso. Esse tanto na tensão entre murcho e a ponto de arrebentar. Mas falar por falar não adianta, escrever que é bom. Escrever é um bom remédio para o tédio existencial e um passatempo tão bom quanto estudar o infinito. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Refrescamento

De noite na cama eu fico pensando.
Como é possível, meu deus, o pensamento.
Levanto e ligo o ventilador.
E então é ouvir o barulho rodando.
Assim esqueço de inclusive pensar
Vou nesse mantra girando.
É que o ruído abafa o som mais ou menos.
Dessa voz que não sabe refletir em silêncio.
O ventilador tem essa função além do refrescamento.
Foi feito também para ninar as cabecinhas de vento...

domingo, 3 de novembro de 2013

Boiar

Ai, meu deus! O que será de mim?
Não faço ideia se me especulo e sou ao mesmo tempo.
Mantenho a calma, medito, rezo, bebo, durmo
Corro, choro, me recomponho e me destruo.
O que tem me acontecido eu só vou saber depois.
Agora estou muito envolvido nessa tarefa de existir.
Abençoado por anjos e atormentado por demônios.
Atrapalhado nos percalços reais e imaginários.
Entretido com os mínimos prazeres.
Tudo isso me toma tudo, tudo isso me custa a minha vida.
Não tenho dois tempos e nem sei me dar certa distância.
Como poderia eu mesmo saber o que será de mim
se exatamente o que sou é essa ignorância?
Estou em alto mar abraçado em um barril.
Há os dias que penso estar bem próximo de uma praia.
Em certas noites solitárias tenho a certeza do meu fim.
Só o tempo vai mostrar, o que por ora não dá para saber.
Em matéria de viver o negócio é boiar.
Principalmente quando o assunto é o que vai ser.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Vida de árvore

Quem já foi uma árvore
Soube o que é ter paciência.
Pediu emprestado o tempo pra si
E foi assim que vingou em resistência.
Ficou plantado no chão como um dois de paus.
Com os galhos pra cima, expandindo a consciência.
Transcendeu o ego e se uniu ao uno divino.
Virou também a fonte, a terra, o sol e o vento.
Sentiu no tronco o infinito pra sempre.
Quem já foi uma árvore
Foi atingido pelo único raio da chuva do dia cinzento sem fim
Entendeu e sentiu o milagre que faz as coisas se transformarem.
Teve uma vida plena e achou tudo maravilhoso em silêncio.