- O que fazes aí?
- Nada.
- O que você tem?
- É que até agora você não parou de falar merda.
Disse ela bem fraca mas aos poucos recuperando forças para conseguir levantar.
Decente ou indecente só se coloca pra fora o que se sente.
Honestamente é difícil expressar o que não se entende.
A gente é gente porque até certo ponto conecta coisas e então compreende.
Me dei um perdido.
Optei por outros caminhos não escolhidos, me permiti passar por enlouquecido, embebecido, aturdido.
Perguntei ao sol, à chuva, às plantas, aos animais.
E baixinho me responderam em forma de subjetividade.
Assim tal como sei sem saber todo o complexo misterioso da expressão nobremente não preservada pela autocensura.
Amigo, o que fazer quando a espera pelo ônibus se encontra numa morosidade absurda? Digo realmente absurda! A ponto dos senhores trabalhadores depois de um dia de labuta, da mais alta nobreza do início da fila, se concentrarem em um ponto fixo, numa eterna espera, atingindo a plenitude, o transe, a comunhão com deus, o nirvana e quiçá a desencarnação em corpo e retorno do espírito e o ônibus nada de aparecer? Complicado, não é mesmo?
Aqui vai uma simpatia infalível para trazer o ônibus amado em 3 minutos:
Primeira tentativa: Acenda um cigarro e aguarde o mesmo queimar até a metade. Geralmente ele chega logo após a primeira tragada. Se for o último cigarro do maço o coletivo tende a aparecer na mesma hora!
Segunda tentativa: As coisas em uma metrópole não são fáceis. Você há de convir que são muitos os chamados divinos pela mais breve possível volta pra casa, não é verdade? Sem contar que o número de fumantes apesar da publicidade do ministério da saúde, só vem aumentando. Bom, nesse caso você pode apelar para uma compra de mercadoria barata com uma cédula muito superior ao preço do produto. De modo que, no embanamento do ambulante ao se ajoelhar e humilhar, pela troca de sua nota de 50 reais com seus colegas de ponto, como num toque de mágica faz aparecer nesse meio tempo no horizonte a Mercedes Benz que você tanto esperava. Essa etapa tem um plus de tensão e adrenalina.
Terceira tentativa: Essa é sua última chance! Porém não pense que se não funcionar você dormirá na sarjeta. Porque Deus é mais e ele está olhando todo o seu sacrifício nas primeiras tentativas! Tenha fé, pois a terceira tentativa consiste em investir uma falsa desistência da fila do tipo: “- Quer saber? Cansei! Vou de metrô mesmo!”, ou algo do gênero. Você não precisa ir embora de verdade, a menos que queira, é claro! Tudo faz parte do milenar ritual urbano, consolidado e sacramentado no renascimento comercial, cultural e urbano, lá nos idos séculos da idade média, nas feiras inter-feudais. No que você por o pé para fora da fila, uma buzina e um barulho de motor ecoará em seus ouvidos.
Uma vez cumprindo todos esses requisitos, eu acho muito pouco provável que o ônibus amado não apareça em 3 minutos. Entretanto, já dizia o profeta dos profetas Pedro Bial: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que presume nossa vã filosofia, meus guerreiros da casa mais vigiada do Brasil!”. E a condução por alguma razão pode acabar por não vir. Nesse caso, avalie sua vida, seus pecados, sua conduta e reflita por que Deus não te agraciou com tal benção. Sendo assim, meu amigo, vá de metrô cheio mesmo e boa viagem!
Experimente você também!
Esperamos ter ajudado.
Obs.: Consta no manual das santidades empresárias de transportes públicos, que mesmo com muito empenho, tais chamados divinos não serão atendidos no que chama-se “Hora do Rush”. O que acarreta na inutilidade de todo esse ritual no horário referido. Casos omissos serão analisados pela comissão de cobradores, hoje em extinção, infelizmente, porém cumprindo essa tão nobre missão de julgar os apelos mais urgentes.
Um dia escaldante. Uma tarde de luz. Tudo brilha e se opaca à luz do sol refletida em metais e corpos banhados a suor. O objeto está em uma estação de trem. Metade do dia correu, a outra metade precisa ser corrida em direção ao final da linha e dali tomar forma da outra metade. O trem chega e o objeto entra. Eis que a viagem começa. Essência de eucalipto viria a calhar naquela caixa quente de metal. O calor queimou o ar e só restava aos outros fumá-lo enquanto não se chega. Outras opções são oferecidas e usadas com frequência. Por exemplo: Do lado de onde o objeto se senta, um senhor pôs-se a cantar hinos ecumênicos. À sua frente umas senhoras fazem tricô resistindo à vontade de secar o suor com o novelo de linha. Água, Coca-Cola, cerveja e picolés devem servir como paliativo no inferno, porque ali funcionavam bem e todos pareciam tranquilos. A vida deve ser vivida, apesar de tudo. A pressão de completar o outro hemisfério do dia bem, já que tudo tinha dado errado até então. 40 horas sem dormir. Excesso de cafeína. Má alimentação. E algumas preocupações em quem se habituou a não se preocupar com nada. Instalou-se o caos. Não dentro do forno-vagão ou vagão-forno, esse segue resignado apesar de tudo depondo contra ele. Instalou-se o caos foi dentro do objeto.
Alguma vez já experimentara o sentimento de estar vivendo um filme ou vivendo sua vida de fora dela? Chamam isso formalmente de despersonalização. O fato é que o restante do dia não pressionava sobre o corpo abatido do objeto, mas podia. E a possibilidade grande é verdade absoluta em horas de paranoia. Paranoia muda tudo, faz as mãos suarem frias, faz o coração bater rápido, faz o objeto desconfiar de tudo e de todos e até inofensiva mosca pode ser um perigo em potencial. O peso do mundo nas costas e uma ansiedade inexplicável. Os rostos das pessoas continuam tranquilos, não há motivo para pânico. Relaxa. O senhor continua a cantar seus hinos ecumênicos, isso alivia e irrita o objeto. “Canta porque sente demônios em mim e quer se proteger e me ajudar, não ando com boas energias. Mas o que é que estou falando? Não sou desses dessas coisas”. E o mal estar agora é paranoia própria do episódio ou cansaço físico? “Posso desmaiar aqui, posso morrer.” Bem, de uma forma ou de outra esse dia chegaria e a dor da alma fica tão aguda uma hora dessas que assim melhor seria. Esse é um pensamento que ajuda o objeto a se acalmar. Mas o subconsciente tem seus truques de manter seu quadro de pânico. “E se eu perder o controle? E se eu fizer coisas só para me contrariar? E se eu não conseguir mais fingir uma sanidade que talvez nem exista?”. Isso é bem pior que a morte do objeto, já que viveria preso em alguma clínica psiquiátrica ou preso em um quarto com medo da própria sombra. O objeto precisa se concentrar e seguir a viagem, o objeto pensa em voltar para casa, o objeto acha que vai passar, o objeto não acha que vai passar e quer conversar com alguém, quer desabafar e depois desabar. O objeto quer que não reparem nos seus tiques que não possui, mas que na hora, parecem todos perceber e olhar e pensar “Louco.” O trem parou. Não tem para onde correr. Começa a contar. Se contorcer de ansiedade. Medo dos próprios pensamentos, medo de ser mais um perdido para o mundo psicótico. O trem volta a andar. “Desço na próxima estação e volto pra casa ou aguento mais um pouco que isso passa?”. Chegou. Hesita e a porta abre. Faz que vai, mas não levanta. A porta fecha. Era pra ter ido. Vai ficar tudo bem. A porta abre de novo e ele corre dali. Vai pra rua, cai a chuva de verão do céu e uma explosão de choro dos olhos dele. Pelo menos veio a calma, a paz e o alívio de uma dor inexplicável.
O objeto vai para casa sem saber o que aconteceu, mas com medo de que aconteça de novo.
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 73
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português"
(Belchior)